sexta-feira, 24 de abril de 2026

PASTORAL nº 119 - 23/04/26 "DEUS IRÁ TE AFLIGIR!"

Recebi uma mensagem de uma aluna do seminário, uma jovem de 21 anos, que atualmente está estudando o módulo do livro de Provérbios no Curso de Teologia Bíblica Aplicada do Instituto Enoch. A mensagem dela me alegrou profundamente, porque revelou algo que todo professor da Palavra deseja ver: um coração queimando diante das Escrituras.

Ela dizia, em outras palavras, que estava feliz por aprender, mas ao mesmo tempo assustada. Feliz porque Deus estava abrindo seus olhos; assustada porque começou a perceber a maldade do próprio coração. Coisas que antes pareciam pequenas, como uma fofoca em família, agora passaram a ser vistas com seriedade diante de Deus. Ela dizia sentir alegria, mas também certo desespero. Não era um peso de condenação, mas uma inquietação santa. Uma alma começando a ser despertada pela Palavra.

Depois, ela me escreveu dizendo que estava aliviada. Ainda havia um pouco de desespero, mas também havia felicidade, porque ela compreendeu que Deus estava lhe dando a oportunidade de arrependimento. Ela percebeu que o seminário, por ser uma vez por semana, lhe dava tempo para rever a aula, digerir o conteúdo e permitir que a Palavra trabalhasse em seu coração.

Essa experiência me levou a pensar em algo muito sério: quando Deus começa a tratar conosco pela Palavra, nem sempre o primeiro fruto é uma explosão de júbilo. Às vezes, o primeiro fruto é aflição.

A Bíblia diz, no contexto do Dia da Expiação: “afligireis a vossa alma” (Levítico 16:29). Essa expressão aparece em um ambiente de profunda solenidade. O povo de Deus era chamado a se humilhar diante do Senhor, reconhecendo a gravidade do pecado e a santidade daquele que estava no meio deles.

Isso nos ensina que há momentos em que Deus aflige a alma do homem. Não como um inimigo que deseja destruí-lo, mas como Pai que deseja despertá-lo. Deus fere para curar. Ele confronta para salvar. Ele incomoda a consciência para que o pecador não consiga mais viver em paz com aquilo que antes tratava como normal.

Foi isso que Jesus disse sobre a obra do Espírito Santo: “Quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo” (João 16:8). O Espírito Santo não apenas consola; Ele também convence. Ele não apenas emociona; Ele revela. Ele abre os olhos para que vejamos o pecado como pecado.

Por isso, quando alguém começa a dizer: “Meu Deus, como eu não percebia isso antes?”, talvez essa pessoa não esteja se afastando de Deus. Talvez esteja, pela primeira vez, sendo realmente aproximada da luz.

Quanto mais longe da luz, menos enxergamos a sujeira. Mas quando a luz entra, até a poeira escondida aparece. A Palavra de Deus faz isso. Ela penetra, discerne, expõe e revela “os pensamentos e propósitos do coração” (Hebreus 4:12).

Muitos pensam que o despertamento espiritual começa sempre com alegria, paz imediata e lágrimas de emoção. Às vezes, sim. Mas muitas vezes ele começa com quebrantamento. Começa com temor. Começa com uma santa inquietação.

Isaías, ao contemplar a santidade de Deus, não começou cantando sobre si mesmo. Ele disse: “Ai de mim! Estou perdido!” (Isaías 6:5). Pedro, ao perceber quem estava diante dele, disse: “Senhor, retira-te de mim, porque sou pecador” (Lucas 5:8). Os ouvintes da pregação de Pedro, em Atos, “compungiram-se em seu coração” e perguntaram: “Que faremos, irmãos?” (Atos 2:37).

A alma afligida por Deus não é uma alma abandonada. É uma alma visitada.

Paulo explica isso de forma muito clara: “Porque a tristeza segundo Deus produz arrependimento para a salvação, que a ninguém traz pesar; mas a tristeza do mundo produz morte” (2Coríntios 7:10).

Existe uma tristeza que vem do mundo e leva à morte. É a tristeza da culpa sem Cristo, do remorso sem arrependimento, do desespero sem evangelho. Mas existe uma tristeza que vem de Deus. Essa tristeza não destrói; ela conduz à vida. Ela não afasta o pecador do Senhor; ela o empurra para os braços de Cristo.

A tristeza segundo Deus é aquela dor santa que nos faz parar de justificar o pecado. É o incômodo bendito que nos impede de continuar brincando com aquilo que entristece o Senhor. É a aflição que nos faz dizer: “Senhor, tem misericórdia de mim, pecador” (Lucas 18:13).

E essa dor, quando é obra de Deus, não termina em condenação. Ela termina em arrependimento, fé, perdão e transformação.

Por isso, não devemos desprezar esses momentos em que a Palavra nos desmonta. Quando uma jovem começa a olhar para a própria vida e percebe que precisa mudar, isso não é fracasso espiritual. Isso é sinal de que Deus está trabalhando. Quando alguém passa a levar a sério pecados que antes tratava como pequenos, isso não é peso inútil. Isso é santificação começando a criar raízes.

Deus não mostra o nosso pecado para nos esmagar, mas para nos levar a Cristo. Ele não revela a profundidade da nossa miséria para nos lançar no abismo, mas para nos mostrar a profundidade da graça. O mesmo Deus que aflige a alma é o Deus que cura a alma. O mesmo Espírito que convence do pecado é o Espírito que aponta para o Salvador.

Portanto, sim: Deus irá te afligir.

Ele irá afligir sua alma para arrancar de você a ilusão de que o pecado é pequeno. Irá incomodar sua consciência para que você não consiga mais viver em paz com aquilo que antes parecia normal. Irá quebrar sua autoconfiança para que você aprenda a descansar em Cristo. Irá mostrar sua fraqueza para que você pare de confiar em si mesmo e comece a depender da graça.

Mas Ele não fará isso para destruir você. Fará para salvar, corrigir, santificar e conduzir você para mais perto de Cristo.

Depois de afligir, Ele consola. Depois de confrontar, Ele ensina. Depois de revelar o pecado, Ele mostra o Salvador. O objetivo de Deus não é formar pessoas desesperadas, mas pecadores arrependidos, humildes, perdoados e transformados.

A alma que hoje treme diante da Palavra pode ser a mesma alma que amanhã dirá com gratidão: “Foi-me bom ter eu passado pela aflição, para que aprendesse os teus decretos” (Salmo 119:71).

Porque quando Deus aflige a alma, Ele não está destruindo a fé.

Ele está iniciando um avivamento!

Pr. Sandro L. Bitencourt

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