O livro de Jó é perturbador não porque seus amigos falem mentiras sobre Deus, mas porque falam verdades fora do lugar certo. Elifaz, Bildade e Zofar conhecem atributos divinos reais: Deus é justo, santo, soberano, não aprova o mal. O problema não está no conteúdo — está no uso. Eles transformam teologia em martelo.
E isso continua acontecendo hoje.
Elifaz começa suave. Ele não chega acusando diretamente. Ele testemunha.
“Eu vi…”, “na minha experiência…”, “assim acontece…”
O erro dele não é observar a vida. O erro é transformar sua observação limitada em decreto divino. Ele pega padrões comuns e transforma em lei absoluta: quem sofre, pecou; quem está bem, agradou a Deus.
Ele não percebe que está julgando Deus a partir da própria vivência.
E esse é um perigo enorme: quando a nossa história vira nossa teologia.
Quando Deus passa a caber no tamanho da nossa biografia.
Porque se tudo funciona na minha vida, concluo:
— funciona assim para todos.
Mas Deus não administra o universo pela minha rotina.
Bildade não apela à experiência. Ele apela aos antigos.
“Pergunte às gerações passadas…”
Ele representa a segurança da tradição. O peso da ortodoxia histórica. Só que ele usa a tradição não para consolar, mas para encerrar a conversa.
Para ele, se a doutrina já está definida, então o sofrimento de Jó só pode ser culpa dele. A tradição vira filtro que impede enxergar o fato concreto diante dos olhos: um justo está sofrendo.
O problema não é a tradição — ela é necessária.
O problema é quando a tradição substitui a compaixão.
A teologia deixa de ser luz e vira sentença.
Zofar é o mais duro. Ele já não tenta explicar — ele diminui.
Para ele, Jó sofre menos do que merece.
Ele não apenas defende Deus, ele acusa Jó.
Aqui aparece algo mais profundo: orgulho religioso.
A sensação de estar do lado de Deus contra o sofredor.
Zofar não percebe que está falando sobre santidade sem santidade no coração. Ele afirma a grandeza de Deus, mas age sem misericórdia — justamente o atributo que Deus mais manifesta no livro.
Eles acertam quem Deus é.
Erram como Deus age.
Eles defendem a justiça divina negando sua misericórdia.
Aplicam verdades eternas de forma imediatista e cruel.
E fazem isso porque não são eles que estão na cinza.
É sempre mais fácil explicar a dor do outro.
Por isso a advertência do livro não é apenas para teólogos liberais — é para gente ortodoxa. Gente que conhece a doutrina correta, mas usa a doutrina para julgar em vez de pastorear.
Tiago diz que a religião pura é cuidar do órfão e da viúva.
Mas os amigos de Jó provavelmente fariam perguntas antes de ajudar:
— O que você fez para chegar nisso?
— Algum pecado oculto?
— Deus é justo… alguma coisa você fez.
Eles tentariam resolver o sofrimento explicando-o moralmente.
Só que a cruz destrói essa lógica.
Nem todo sofrimento é punição.
Nem toda prosperidade é aprovação.
Se fosse, Cristo teria sido o maior pecador da história.
Jó não nega que Deus é justo.
Ele nega que a equação deles explica a realidade.
Então ele pergunta, em essência:
Se sofrimento é sempre castigo proporcional ao pecado…
por que vocês não sofrem também?
E mais:
por que o ímpio prospera?
Os amigos têm respostas prontas. Jó tem a realidade diante dos olhos.
Ele manda observar o campo, os animais, a natureza — a própria criação mostra irregularidades que quebram qualquer sistema simplista de recompensa imediata.
A vida não cabe em um método.
Os três amigos representam algo muito moderno: uma fé pragmática.
Faça certo → Deus retribui.
Erre → Deus cobra.
Isso pode vestir roupa de prosperidade financeira ou de coaching espiritual. Mas a estrutura é a mesma: técnicas para controlar resultados.
Só que o livro de Jó existe justamente para destruir a ideia de que Deus pode ser reduzido a fórmula.
Deus não é mecanismo moral automático.
O mais assustador do livro não é que existiram homens assim — é que eles eram sinceros, piedosos e teologicamente corretos em grande parte do que diziam.
O problema deles não era falta de Bíblia.
Era falta de compaixão.
Quando não somos nós na dor, a tendência é organizar a dor do outro em um sistema explicável. Isso nos dá sensação de controle.
Mas Deus não nos chamou para explicar toda dor.
Chamou para chorar com os que choram.
Porque às vezes a pior heresia não é dizer algo errado sobre Deus —
é dizer algo certo na hora errada.
E no final do livro Deus não repreende Jó por suas perguntas angustiadas.
Ele repreende os amigos por falarem corretamente sobre Ele, mas de maneira que não O representava.
Eles defenderam a honra de Deus ferindo um filho de Deus.
E isso ainda acontece quando a verdade é usada sem graça.
Pr. Sandro L. Bitencourt






Quantas vezes já pensamos: "Por que Deus permite isso?" Pior ainda quando esse "isso" se refere a nós. Dá para entender o porquê de coisas ruins acontecerem conosco e, ao mesmo tempo, ouvirmos que Deus cuida de nós? Agora, o que ninguém quer dizer e nem comentar são as responsabilidades – sim, responsabilidades no plural. Vivemos em uma sociedade e somos responsáveis não só por nós mesmos, mas também por aqueles que estão próximos de nós e até mesmo distantes. Isso porque, por mais que nossa mão não alcance alguém devido à distância para fazer-lhe mal, a enchente pode fazer o serviço por nós, provocada pelo saco plástico que nossa mão jogou no esgoto.








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